quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Amigos e familiares de jovem morto em chacina na Itinga realizam movimento pela paz nesta sexta (17)


Nas redes sociais, amigos lamentaram a morte de Israel(Foto: Reprodução). 'O hip-hop daqui deve muito a ele. Foi um choque pra gente', diz amigo de jovem morto em Itinga 



Israel Borges Passos Marques era conhecido por praticamente toda a comunidade do Largo do Caranguejo, no bairro de Itinga, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). Desde cedo, aprendeu o ofício de eletricista na prática. Assim, se tornou sonorizador das batalhas de MCs no Largo – especialmente, a Batalha do Caranga, que acontece toda sexta-feira, às 19h. 

Na noite de terça-feira (14), Israel estava em seu carro, um Gol preto, com outros dois jovens - Rodrigo Santiago dos Santos, 19 anos, e Afonso de Jesus Soares, quando foram abordados por suspeitos na Rua Antônio Gonçalves, na localidade conhecida como Parque São Paulo, por volta das 21h30. 

Segundo a Central de Polícia, os três jovens foram obrigados a descer do veículo e deitar no chão. Em seguida, o grupo fez dezenas de disparos na direção dos três rapazes. Todos morreram no local, antes mesmo de ser socorridos.

Israel tinha sido um dos fundadores da Batalha do Caranga, pouco mais de dois anos atrás. “É um projeto em prol dos jovens negros daqui da comunidade. Ele era um dos poucos que entendia de sonorização. A batalha teve um crescimento e ele era um dos responsáveis. O cenário do hip-hop daqui deve muito a ele. Rael tinha um filhinho de nove anos, que ia para a batalha e tudo mais. Foi um choque muito grande para a gente”, lamentou um amigo de Israel, também morador de Itinga. 


"Ajudava mais do que podia"Nos últimos tempos, Israel estava desempregado. Tinha renovado a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e trabalhava fazendo carreto e os bicos que apareciam. Com a vida, aprendeu a ser eletricista e se apaixonou pela música. 


Segundo o amigo, na verdade, Israel morava próximo ao Parque Santa Rita – não no Parque São Paulo, onde o crime aconteceu. “Ele estava lá de passagem, provavelmente estava passando de carro por lá com os meninos”. Ele conta que Rael era assim: por ter carro, estava sempre fazendo favores para quem precisava se locomover até algum lugar mais distante. 


Na página do Facebook da Batalha do Caranga, uma postagem de luto lamentou a morte de Israel. "O movimento hip-hop,a Batalha do Caranga e nós infelizmente acabamos ter uma grande perda - desse que sempre pedia nas batalhas um momento para abraçar e valorizar a vida do próximo diante dessa violência do mundo. Sempre foi correria e, além de gosta, tinha prazer em fazer o que fazia pra ver tantas pessoas alegres. Ajudava mais do que podia pra fazer a batalha acontecer a cada sexta". Também na rede social, outro amigo de Israel fez uma postagem emocionada. "Rael sempre foi um bom rapaz, corre pelo certo e só veio ao mundo pra ajudar, hoje deixou sua esposa e filho pequeno. Fico me perguntando onde que vamos parar com tanta violência", escreveu. 


O amigo de Israel ouvido pelo CORREIO diz que conhecia Rodrigo, por morar na comunidade, mas não sabia muito sobre ele. No começo da noite desta quarta-feira (15), o corpo do jovem ainda aguardava para ser reconhecido por familiares, na sede do Instituto Médico Legal (IML), assim como o de Afonso. Segundo o Departamento de Polícia Técnica (DPT), o corpo de Israel foi liberado e encaminhado ao cemitério Quinta dos Lázaros ainda nesta quarta-feira (15).

Manifestação pela paz

Para pedir justiça e tempos pacíficos para a comunidade, os moradores estão organizando uma manifestação para sexta-feira (17), às 16h, no Largo do Caranguejo. No Facebook, os organizadores pedem que os participantes levem cartazes, apitos e balões e que vistam roupas pretas – eles reforçam que “preto também merece paz”. Eles pedem que as pessoas comecem a ver a comunidade de uma forma diferente – desmitificando a ideia de que “a favela é violenta”. 

“A gente está realmente pedindo paz aqui dentro. Como qualquer outra comunidade, a gente prefere não falar sobre o que aconteceu pela possibilidade de ter retaliação depois, mas a gente pede clareza (na investigação), que seja apurado de forma correta. Tem gente que não está saindo de casa com medo. É frustrante porque a gente tenta mudar a cabeça dos jovens com relação a isso, mas todo mundo aqui fica quieto por medo de retaliação. Tenho colega de 17 anos com medo de sair de casa. Ninguém vai ficar até 9h30 da noite na rua, porque tem medo do que pode acontecer”, desabafa o morador. 

Por isso mesmo, ele confirma que, em algumas localidades de Itinga, está existindo uma espécie de toque de recolher – as pessoas estão recolhidas em suas casas por medo de sofrer alguma retaliação por cobrar paz e justiça. 


Fonte: Correio da Bahia/Lauro News Online

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